DPF Milton Fornazari Júnior

DPF Milton Fornazari Júnior



A Revista Artigo 5º entrevistou o Delegado Federal Milton Fornazari Junior, Integrante da Delegacia de Defesa Institucional de São Paulo que concentra investigações transnacionais relacionadas à prática dos crimes de tráfico de pessoas, contrabando de migrantes e crime organizado, utilizando a sua expertise em cooperação internacional para desenvolver as suas atividades. 

O delegado integrou a equipe policial que, em 2009, iniciou as investigações de doleiros em Londrina/PR, que resultariam na Operação Lava Jato. Representou a Polícia Federal junto à ENCCLA e ao FOCCOSP, estratégias nacional e regional no combate à corrupção e à lavagem de dinheiro.

Milton é Doutor em Processo Penal e Mestre em Direito Penal pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.


Como foi o início da sua carreira na Polícia Federal? Em que posto, ficou lotado inicialmente? Como foi a sensação de participar da primeira operação?


O início da minha carreira foi na DELECOR de São Paulo, no ano de 2008, onde tive a oportunidade de conduzir diversas investigações envolvendo a prática de crimes financeiros, corrupção e lavagem de dinheiro, como aquelas relacionadas a fraudes nos bancos Panamericano e Cruzeiro do Sul, ao rescaldo da Operação Satiagraha e a Operação Linha Cruzada, que ficou conhecida como "Caso do Cartel de Trens e do Metrô de São Paulo", dentre outras. 

A satisfação pessoal por ter participado dessas operações e também de muitas outras é muito grande, pois você sente que está de fato contribuindo de maneira efetiva para a pacificação e evolução da sociedade, com profissionalismo e eficiência no combate ao crime. 


Sempre foi um sonho ser da PF? Antes de entrar na Polícia, trabalhou em outra área?


Antes de entrar na PF fui advogado do Banco do Brasil e Procurador Federal na Advocacia Geral da União. 

Desde que ingressei na faculdade de Direito sempre tive muito interesse na carreira de Delegado Federal, mas após ver as primeiras grandes operações policiais do início da década de 2000, percebi que trabalhar na PF também seria uma grande oportunidade de realizar um trabalho razoavelmente bem remunerado e capaz de alterar e melhorar a nossa realidade social. Por essa razão decidi estudar para o concurso. 


O senhor é escritor? Que obras já escreveu e de que tratam? Também dá aulas? É professor universitário e pesquisador?


Escrevi artigos em periódicos e em publicações especializadas da área do Direito, mas a minha obra principal é o livro "Cooperação Jurídica Internacional: auxilio direto em matéria penal", da editora Lumen Juris, fruto da minha tese de Doutorado defendida na PUC-SP e também da minha atuação prática na investigação de crimes envolvendo a criminalidade organizada transnacional.


O senhor foi um dos principais delegados da Operação Lava Jato. Como foi o início desse trabalho? Como o senhor chegou a Operação ou como a Operação chegou ao senhor?


Acredito que tenha sido apenas mais um dos diversos delegados que contribuíram para o sucesso da operação em alguns dos seus vários  momentos ao longo desses anos,  até por que outros colegas se envolveram muito mais intensamente do que eu, principalmente nos trabalhos da operação em Curitiba, onde ocorreu a maior parte dos trabalhos, tendo sido deles o grande mérito pelo sucesso da operação em si.

A minha participação se iniciou em Londrina, quando fiquei em missão para auxiliar o presidente do inquérito (que se transformaria depois na Operação Lava Jato), tendo representado por medidas cautelares de interceptação telefônica e de afastamento dos sigilos bancário e fiscal de alguns investigados, além de ter coordenado outras diligências de campo. Posteriormente, integrei o grupo de trabalho que conduziu os primeiros inquéritos da Operação Lava Jato junto ao Supremo Tribunal Federal, tendo representado pela expedição de parte dos mandados de busca e apreensão na Operação Politeia. Em seguida, chefiei a DELECOR SP, onde por um tempo montei e supervisionei as equipes que conduziram as investigações que resultaram nas operações Custo Brasil, Cifra Oculta e Pedra no Caminho (Rodoanel), todas envolvendo empresas investigadas na Operação Lava Jato. 


Quais foram as consequências ou resultados do estágio inicial das investigações da Operação Lava Jato?


Acredito que o grande mérito das investigações iniciais foi ter lançado uma pequena parte dos fundamentos e alicerces para que a investigação não fosse anulada no futuro. Em 2015, o trabalho realizado à época chegou a ser atacado por grandes bancas de advocacia junto ao STF, por meio da Reclamação nº 23.357, a qual acabou sendo julgada improcedente ao final, tendo sido reconhecida pelo STF a higidez das medidas investigativas realizadas à época. 

Como policial federal, o senhor investigou casos de corrupção em diferentes estados. O senhor viu algum padrão que poderia ser uma característica brasileira dos casos de corrupção no país?

As grandes organizações criminosas voltadas à corrupção no Brasil se valem, em todos os lugares, da utilização das tipologias mais sofisticadas e complexas da lavagem de dinheiro para realizar os pagamentos das vantagens indevidas aos agentes públicos, tais como a manutenção de empresas offshore e contas no exterior, a utilização de intermediários ou operadores financeiros profissionalizados na lavagem de dinheiro, empresas de fachada, "laranjas" e a utilização de muito dinheiro em espécie, visando sempre dificultar o rastreamento do dinheiro pela polícia. Normalmente, essas organizações criminosas também possuem um considerável poder de articulação junto às instituições públicas, que pode variar de intensidade de um local para o outro e pode dificultar e/ou impedir as investigações. 


O senhor agora está lotado na Delegacia de Defesa Institucional, em São Paulo. O que faz hoje nesta unidade?


A Delegacia de Defesa Institucional concentra  investigações transnacionais relacionas à prática dos crimes de tráfico de pessoas, contrabando de migrantes e crime organizado, dentre outros, o que demanda o conhecimento e a utilização de técnicas especiais de cooperação internacional, envolvendo, portanto, uma temática extremamente  atual e desafiadora para a atuação da Polícia Federal, o que tem me proporcionado uma grata satisfação pessoal no dia a dia das investigações. 


Que mensagem o senhor gostaria de passar aos seus colegas em relação ao exercício da profissão de policial federal?


Acredito que todos nós, policiais federais,  devemos prosseguir trabalhando  da maneira mais correta, honesta e isonômica possível, mantendo a eficiência das investigações e aprofundando os trabalhos em relação a absolutamente todos aqueles que  se beneficiaram ou ainda se beneficiam dos esquemas ilícitos de corrupção que sempre existiram no Brasil, independentemente da coloração partidária, permitindo assim a nossa devida evolução como civilização.


Entrevista Realizada no gabinete do Delegado Milton Fornazari Júnior em São Paulo



Edição: 65 – Novembro/Dezembro



Associação dos Delegados da Polícia Federal

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